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nov 10

Viaje para a Terra Santa – Israel, parte 1: Introdução

Muro das Lamentações, Monte do Templo e Domo da Rocha, Jerusalém.

Muro das Lamentações, Monte do Templo e Domo da Rocha, Jerusalém.

Dizem que a Civilização Ocidental é filha do casamento de Atenas com Jerusalém. É impressionante como um pedaço tão pequeno de terra (que nem é lá das melhores) foi capaz de exercer influência tão monumental sobre a história do mundo. A Terra Santa é o berço do judaísmo e do cristianismo, e uma das localidades mais importantes para os muçulmanos.

Assim, visitar a Terra Santa é visitar as raízes de nossa cultura. A história desse pedaço tão disputado de terra é também a nossa história.

Todavia, infelizmente não associamos a Terra Santa apenas com a sua herança cultural.

Jerusalém. Judeus. Árabes. Palestinos. Conflitos. Morte. Guerra e mais guerras. Pensamos em todas essas palavras, quando se fala em Israel e Palestina (não há como falar de um sem o outro, seja na política seja no turismo). O país aparece no noticiário como a origem de uma interminável procissão de notícias ruins.

Visitar a Israel é visitar um local repleto de história antiga e nova, de uma cultura vibrante que, mesmo diante de todas as dificuldades, conseguiu construir um país bem desenvolvido, mas sem a ostentação que vemos nas capitais ocidentais.

Por outro lado, visitar a Palestina é conhecer um povo à espera de um futuro, cuja chegada está cada vez mais distante. Esperam e esperam e esperam o tempo quando será cumprida a promessa de que poderão ter um país viável e verdadeiramente independente.

É nessa e muitas outras encruzilhadas de histórias que está a Terra Santa, destino indispensável não só peregrinos, mas também para todo viajante que tenha o menor dos interesses pela história e a cultura do Mundo Ocidental. Então, viaje com a gente para a terra de Abraão, Jesus e dos cruzados, e descubra um lugar repleto de cultura, história e de um povo cheio de alegria de viver, apesar de todas as dificuldades. Quem sabe você dê sorte e consiga descobrir o Santo Graal ou a Arca da Aliança!

Devotas cristãs da África rezando, Jerusalém.

Devotas cristãs da África rezando, Jerusalém. É muito comum em Jerusalém ver grupos cristãos de todas as partes do mundo levando seus próprios padres para realizarem missas nas Igrejas famosas de lá na sua própria língua. Esse grupo da fotinha é de angolanos!

Por que viajar para Israel?

Se viajar é sair da caixinha da nossa vida diária e uma excelente oportunidade para refletirmos sobre nossas próprias visões e preconceitos, como já discutimos em outro post (clique aqui), visitar Israel e a Palestina cumpre bem essas duas tarefas.

Um grande exemplo disso é a Cidade Antiga de Jerusalém, que, apesar do pequeno espaço relativo, está dividida em quatro bairros completamente distintos. Bastam poucos passos para você sair do Bairro Judeu para o Árabe, do Cristão para o Armênio. São mundos diferentes bastante próximos um do outro fisicamente, mas politicamente distantes e todos eles diversos do nosso. Em um piscar de olhos, somem as freiras tradicionais do bairro Cristão, aparecem os judeus ultraordoxos com as suas roupas bem características, e mais adiante surge os bazares do Bairro Muçulmano e mulheres de hijab. Mundos percorridos à distância de metros.

O senso de descoberta, encantamento e estranhamento é constante. São esses sentimentos que constituem o que há de mais maravilhoso em viajar, e a Terra Santa é repleto deles.

Contudo, Israel não é país é dotado de belezas espetaculares, sejam elas paisagens naturais ou prédios monumentais. Sem dúvida, o Mar Vermelho é lindo, e o Jardim Bai’hai, em Haifa, um resumo do que há de mais belo da cultura do Irã em pleno Estado de Israel. Porém, o que torna esse pedacinho do mundo tão especial é a cultura. É o vazio das ruas no sabá dos judeus. São os pequenos grupos cristãos dos diversos cantos do mundo que realizam missas particulares nas históricas igrejas da região. É a explosão de vida nas comunidades muçulmanas, quando, durante o Ramadã, chega a hora de quebrar o jejum. E toda essa diferença cultural acontece a poucos metros uma das outras. E todos estão convencidos que, por estar ali, na Terra Santa, estão no Centro do Mundo.

Para um viajante, isso é mais do que suficiente para colocar Israel e a Palestina na lista de “lugares que tem que ser visitados”.

Mar da Galiléia (ou Lago Tiberiades, como preferir).

Mar da Galiléia (ou Lago Tiberiades, como preferir). Na verdade, o “Mar da Galiléia” não é bem mar, mas um grande lago. Inclusive, ele fica a 300m abaixo do nível do mar. Sua fama vem das histórias bíblicas, constituindo cenário de várias passagens da vida de Jesus. Dele também nasce um rio bem conhecido na Bíblia: o rio Jordão.

Ok. Parece ser legal. Mas quando devo visitar a região?

Praticamente não chove na Terra Santa de abril a outubro, o que torna essa época boa para passear por essas bandas. Afinal, chuva não combina com passeio.

O ideal é que você visite a região na primavera (de março a maio, no hemisfério norte), quando as flores tornam tudo mais belo e as temperaturas são mais amenas.

Mas há outro fator a considerar. Ramadã, Ashura, Pessach, Yom Kippur, Hanukka, Páscoa, Natal. Tem sempre um feriado ou um evento cultural acontecendo na Terra Santa. Não deixe de levar isso em conta ao programar a sua viagem, tanto para não ser surpreendido por uma atração fechada, quanto para aproveitar a intensidade dessas manifestações religiosas. E é essa, podemos garantir, o que há de mais legal na Terra Santa! Por exemplo, guarde a visita de Jesuralém para um final de semana. Por exemplo: chegue na sexta-feira, feriado para os muçulmanos, passe o sábado, Shabatt para os judeus, e fique o domingo, dia santo para os cristãos. Mesmo se você for ateu, vai achar muito curiosa a experiência e aproveitar todas as lojas, já que cada uma delas fecha no seu dia festivo respectivo.

Preciso de visto para entrar em Israel?

Para os brasileiros, não é necessário visto para entrar em Israel.

O telefone do Consulado do Brasil em Tel Aviv é (+9723)/(03) 797-1500. Tenha esse número sempre a mão para uma eventualidade. Vai que… rs

Muçulmanos rezando no Monte do Templo, diante do domo da Rocha.

Muçulmanos rezando no Monte do Templo, diante do domo da Rocha, do qual Maomé teria ascendido aos céus para receber uma mensagem diretamente de Deus sobre os detalhes da oração e voltado para contar aos fiéis. Infelizmente só quem pode visitar o domo da Rocha, um dos cartões postais mais conhecidos de Jerusalém, são os muçulmanos, acesso estritamente e rigidamente controlado pelo Exército de Israel, para evitar mais conflitos. Assim, não seja o espertinho e banque o muçulmano para entrar nessa beleza porque eles vão fazer perguntas religiosas e pedir que você recite suras em árabe que duvido que você consiga passar pelo security check.

Preciso contratar um guia para conhecer o país?

Não. Apesar de ele ser muito importante, ainda mais quando você não entende muito de Bíblia, Torá ou Alcorão. Lembre-se de que o país não tem muitas belezas naturais ou prédios modernos, digo, bons lugares para fotos estonteantes. Assim, sua viagem será muito mais cultural do que paisagística. Logo, o guia trará vida e história aos monumentos mudos.

Em grande medida, o país é seguro, bem sinalizado, e as pessoas sabem falar inglês, no mínimo o inglês básico. Seja em Israel, seja na Palestina, há muita boa vontade de ajudar os visitantes, em especial os brasileiros. Para além dos eventuais estereótipos, tanto árabes como judeus é um povo de comerciantes, hospitaleiro e aberto quase que por natureza. Aliás, na Palestina, não é incomum encontrar quem fale português brasileiro, pois o Brasil possui uma comunidade de emigrantes palestinos relativamente grande, e muitos retornam para a sua terra natal depois de ganhar algum dinheiro por aqui. Então, espere uma recepção calorosa.

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Não importa a religião para o capitalismo. Olha só essas camisas no centro de Jerusalém antiga, contra Israel, contra Palestina, contra judeus, árabes, muçulmanos, uma do lado da outra, esperando serem trocadas por alguns dólares… rs

Claro que há também MUITOS problemas na região. Mesmo com guia, é problemático se aventurar em certas regiões da Terra Santa, como Hebron e a Faixa de Gaza, locais visitados com ônibus blindados (sim, é perigoso e não é brincadeira). Nunca se deve subestimar a estupidez humana.

Já no momento em que você chega ao aeroporto em Israel, percebe-se que o país leva a sua segurança muito a sério, ainda bem. Aliás, a segurança de Israel é talvez a mais eficaz, ágil e séria do mundo. E olha que já passamos por várias. Um guia vai lhe ajudar a evitar esses lugares, que, no entanto, podem ser identificados facilmente com um pouco de pesquisa e o bom e velho bom senso.

O nosso guia em Israel foi o Nestor Feller (clique aqui para conhecer o site dele). Ele tem um imenso conhecimento sobre a história e cultura da região e das religiões e é daquele que não deixa a pergunta mais complicada sem uma resposta satisfatória. Além de falar e entender um bom português, ele é pontual e possui uma confortável van particular, com um ar condicionado que é uma benção nos meses mais quentes. O problema é que ele é natural da Argentina, e todos conhecemos como são os “hermanitos”. Se você tiver paciência suficiente, fica a estóica dica.

Soldados multi-étnicos, Jerusalém.

Soldados multi-étnicos, Jerusalém. É bem comum encontrar com esses jovens em Israel, que formam o seu Exército. Por conta dos INÚMEROS problemas do país, o serviço militar é obrigatório a todo cidadão, durante três anos. Por esse motivo, assim que terminam o ensino médio, os jovens prestam serviço militar e somente após vão para a faculdade. Em vários pontos do país, estão lá os jovens, muito educados, falantes de várias línguas e bem armados. Em cidades de praia, comum encontrá-los de bermudas, chinelos e alguns fuzis bem modernos. Olhando para essa foto, é possível questionar seu esteriótipo de judeu, né? Todos eles são judeus.

Com quem ir?

A Terra Santa é um bom destino para viajantes solitários ou acompanhados de um amigo, do amor-da-sua-vida ou mesmo de toda a família. Todavia, não é um destino com grandes paisagens ou com muitas atividades para crianças. Assim, o ideal é que você e seus acompanhantes se interessem por religião, cultura e história, o que exclui normalmente as crianças e a maioria dos adolescentes. Lembre-se de que uma boa viagem é aquela em que todos estão se divertindo.

Como se preparar?

Sempre dizemos que estudar o seu destino é indispensável para aproveitar plenamente o lugar. Afinal, visitar a Índia sem saber nada sobre hinduísmo ou sobre a sua confusa história é um desperdício.

Mas tal recomendação é ainda mais importante, quando se visita a Israel. Conhecer as principais passagens da Bíblia, bem como os contornos da história da região, certamente tornarão a visita muito mais inesquecível.

Para quem lê inglês, é possível comprar os capítulos individuais dos guias do Lonely Planet (clique aqui, para ir para o site). Antes de ir para qualquer país, gostamos de comprar e ler o capítulo “Understand [nome do país ou região]”, que geralmente é o último capítulo desse guia. É o suficiente para você visitar o local sem ficar completamente alienado sobre o que você está vendo.

Filmes bacanas para entender um pouco sobre o povo judeu, pogrons, Israel, Palestina, Segunda Guerra Mundial, e etc são: Munique, 1972; A lista de Schindler; A trégua; a série Holocausto; Shoah, Coleção Holocausto e os crimes da Segunda Guerra (9 DVDs, em especial o Em busca da Paz); O pianista; A espada de Gideão; Ataque em Entebbe e diversos outros. Não falaremos sobre cada um deles agora, mas faremos um post de filmes sobre a Segunda Guerra, outra nossa paixão.

O que levar?

Em grande medida, viajar para Israel é como viajar para a Europa. Aquilo que você esquecer, conseguirá comprar lá sem maiores dificuldades.

Anda-se bastante, e, na estação seca, o sol é implacável, daqueles que nos faz acreditar na fúria divina, relatada por diversas vezes na Bíblia. Assim, não abra mão de um bom calçado, um chapéu e de um bom protetor solar. Lembre-se ainda de que você entrará em muitos templos das mais diversas religiões, o que exige ter sempre os joelhos e os ombros cobertos, em sinal de respeito pela espiritualidade do local. Daí que, se for sair com uma roupa mais curta, não esqueça de levar um pano ou um lenço para se cobrir.

A moderna Tel Aviv às margens do Mar Mediterrâneo.

A moderna Tel Aviv às margens do Mar Mediterrâneo. Tel Aviv-Yafo não é a capital de Israel, como pensávamos. Ela é apenas a cidade mais moderna do país e onde ficam grande parte dos consulados, em razão da complicada situação política de Jerusalém, eles resolveram construir suas sedes diplomáticas um pouco longe do olho do furacão. Contudo, é em Jerusalém que está o Parlamento, o Executivo, o Judiciário e a Mossad, um poder à parte (rs).

É seguro viajar para Israel?

Israel tem uma taxa de homicídios de 2,1 homicídios por 100.000 habitantes. A taxa média do Brasil é de 21 por 100.000 habitantes. Diante disso, comparado com Brasil, Israel é o paraíso em termos de segurança.

Mas existe uma realidade de violência que não pode ser ignorada.

Pouco antes de visitarmos a região, fundamentalistas judeus haviam colocado fogo em uma importante igreja cristã, local onde Jesus teria feito o milagre da multiplicação dos pães e dos peixes. Enquanto escrevemos esse post, ocorre uma série de ataques com golpes de faca de muçulmanos contra judeus. Na repressão subsequente, inúmeros muçulmanos foram mortos, e o Bairro Árabe de Jerusalém foi fechado.

Mudam os detalhes, mas esse é um padrão que infelizmente tem se repetido nos últimos anos. Atos de terror por um lado provocam brutal repressão por parte do outro. Independentemente das justificativas de um ou outro grupo, é um padrão que tem perpetuada os ciclos de violência na região, e é algo que você deve ter em conta quando decide viajar para esses lados.

Casal de judeus ultra-ortodoxos.

Casal de judeus ultra-ortodoxos. Muitos ultra-ortodoxos defendem que Israel sequer deveria existir, pois atrapalharia a vinda do messias. Já alguns grupos ortodoxos sustentam que a existência de Israel, e suas miraculosas vitórias na Guerra de Independência (1948) e de Seis Dias (1967) seriam sinais de aprovação divina, e do início da Era Messiânica. Esses ortodoxos veem qualquer entrega de terras para os palestinos como um crime contra Deus.

É muito estranho relembrarmos da nossa visita à cidade em meio a esses ataques atuais. Pensar que passamos por esse ou aquele lugar que agora está fechado por motivos de violência. Por outro lado, não sabemos se a situação tende a melhorar ou piorar, o fato é que se você tem curiosidade para conhecer o local, vá logo. Caso contrário, você sofrerá como nós ao vermos Palmira, na Síria, destruída sem ao menos darmos uma borboleteadinha por lá. Além do gigantesco sofrimento humano envolvido em todos esses conflitos. Não duvidemos nunca da estupidez humana.

Os israelenses são loucos fascistas que desejam a destruição do povo palestino?

Não.

Na verdade, essa pergunta merece um post próprio, no qual possamos discutir com mais espaço a história e as dificuldades do conflito árabe-israelense, repleto de razões e equívocos de lado a lado.

Em resumo, e correndo o risco de simplificar demasiadamente o problema, pode-se dizer que a maior parte do que o governo de Israel faz é para sobreviver em um ambiente político extremamente hostil à continuidade de sua existência. Em decorrência da história recente da região, a hostilidade a Israel e as promessas de sua destruição tornou-se uma forma de os governantes muçulmanos se legitimarem perante o restante do Mundo Muçulmano, de se apresentarem como seu líder. Quando o governo de Israel fala em risco à própria existência do país, não há aí um exagero retórico, mas sim uma simples descrição da realidade. Israel é o único país do mundo que não pode perder uma guerra, pois, do contrário, serão exterminados. E tudo isso se desenvolve sob a terrível sombra do Holocausto (ou Shoah para os judeus, pois para eles holocausto significa um sacrifício sagrado).

Além disso, não pode ser chamado de fascista um país que, composto por uma maioria filiada a uma religião (judaísmo), proíbe os membros dessa mesma maioria religiosa de rezar em um dos seus lugares mais sagrados (Monte do Templo), para evitar conflitos com um grupo religioso minoritário (muçulmanos), que tem no mesmo espaço importante lugares sagrados (Domo da Rocha e Mesquita Al-Aksa), e lá são autorizados a orar.

O fascismo foi uma ideologia que pretendia criar ou recriar uma comunidade pura e homogênea no país, com exclusão e redução de direitos de todos os que não se encontrassem nessa caixinha. O fascismo considera o liberalismo como um momento político de decadência, e parte de um ponto de vista ultra-nacionalista para defender o renascimento da pátria, que, sob a direção de um poderoso líder carismático, e com o ativismo militante de seus cidadãos, organizados em um partido político único, conseguirá se elevar até o seu lugar de direito.

Basta olhar a diversidade da sociedade israelense e o seu compromisso com a democracia para perceber que não se trata de um Estado fascista. Muito mais próximos ao fascismo estão os fundamentalistas judeus e muçulmanos que veem o Estado de Israel como seu inimigo. Em Israel, sente-se verdadeiramente livre. Tente visitar a Arábia Saudita.

Festa na Praia em Tel Aviv.

Festa na Praia em Tel Aviv.

Quando se acusa o Estado de Israel de ser fascista, busca-se desqualificá-lo como interlocutor, na discussão de uma série de problemas da região, pois hoje o termo “fascista” tem evidente caráter pejorativo. Estrutura discursiva, aliás, bem recorrente ao cenário brasileiro, infelizmente, na qual se concentra no atores do discurso e não nos argumentos. Todavia, tal estratégia, além de falaciosa, é infantil, não contribui para o avanço da discussão, e deve ser evitada. Na verdade, ela diz mais sobre quem a profere do que sobre as ideias de qual ou tal grupo político na região.

Isso não significa que o governo do Estado de Israel seja angelical, imune a qualquer erro. Muitas vezes, ele age com a mesma injustificável brutalidade da qual os judeus foram vítimas tantas vezes ao longo da história. Rotular toda crítica ao governo do Estado de Israel como anti-semitismo é tão idiota como chamar esse governo de fascista. Mas o uso, nesse contexto, do rótulo fascista (ou mesmo imperialista) só contribui para obscurecer o problema, e deve ser evitado. Não é porque o Estado de Israel é hoje o mais forte que ele está errado, até porque nem sempre foi assim, numa história bem recente, diga-se de passagem.

Assim, se você pensa em entender melhor a questão, tornar-se mais esclarecido sobre esses temas, fuja desses esteriótipos.

Muro de segurança que divide Jerusalém de Belém.

Muro de segurança que divide Jerusalém de Belém. Sim, ele existe fisicamente e é enorme. Vergonhoso? Indispensável? Seguro?

É seguro uma mulher desacompanhada visitar o país?

Em Israel, o serviço militar de 3 anos é obrigatório para homens e mulheres. É o único país do mundo que tem uma regra assim. Isso basta para exemplificar a igualdade com que os sexos são vistos pelo governo israelense.

Todavia, a situação é diferente no contexto das famílias judias ortodoxas e ultra-ortodoxas, nas comunidades muçulmanas e entre as diversas minorias. O Estado de Israel é laico, mas respeita as tradições de cada um desses grupos, os quais infelizmente trata homens e mulheres com desigualdade. É aquela velha tensão entre defesa da igualdade e respeito às diferenças culturais, que é agravada pela situação de permanente tensão em que vive o país.

Mas mesmo nos regiões mais tradicionais as coisas estão mudando. Nos territórios palestinos na Cisjordânia, cada vez mais mulheres buscam uma melhor educação e trabalho fora de casa. E até mesmo na política elas têm ganhado espaço. Em Ramallah, a capital administrativa da Autoridade Palestina, a prefeita é uma mulher: Hannan Ashrawi.

No entanto, para a turista mulher isso como regra não é um problema, inclusive porque as leis do país protegem fortemente as mulheres contra agressões e assédios.

mulher guerrilheira

Belém, muro que separa o território administrado e policiado pelos palestinos daquele administrado e policiado pelos israelenses. Na foto, há um desenho de Leila Khaled.

O país é amigável para turistas abertamente gays?

Na Terra Santa, varia muito a reação das pessoas diante de manifestações de afeto de casais homoafetivos. Em Tel Aviv, ninguém se importará, até porque a cidade é conhecida por ser a mais secular do país e a mais aberta à comunidade a aos turistas gays.

Porém, em lugares mais conversadores, como Jerusalém, convém ser mais discreto, caso se deseje evitar olhares e até mesmo recriminações.

Já na Palestina, infelizmente deve ser evitado que a pessoa seja identificado como gay, pois tal situação pode trazer problemas mesmo para turistas. Na verdade, essa mesma regra vale para todo o Mundo Muçulmano.

Isso não significa que não existam comunidades gays no países islâmicos. Na verdade, a vida não parece ser tão impossível para os homens homossexuais, pois, diante do enorme machismo presente nessas sociedades, eles possuem enorme liberdade de ir e vir. São obrigados a casar, para manter as aparências, mas, depois de cumprido esse dever social, podem fazer o que quiserem, desde que sejam discretos. Há algum tempo atrás a BBC fez uma excelente reportagem sobre o tema, com um enfoque no Paquistão (clique aqui para ler, vale muito à pena).

Dana International é uma das cantoras mais populares de Israel, e ganhadora de 1998 do Concurso Eurovision de Canção. É também uma transexual, o que desperta a ira dos tradicionalistas israelenses que enxergam nela tudo que há de errado na sociedade secular de Israel. Não é muito diferente do comportamento conservadores religiosos aqui também no Brasil.

Dana International é uma das cantoras mais populares de Israel, e ganhadora de 1998 do Concurso Eurovision de Canção, o que a transformou em heroína nacional. É também uma transexual, que adora cantar, entre outras, músicas tradicionais, e até mesmo religiosas, em hebraico e em árabe, o que desperta a ira de muitos tradicionalistas israelenses e muçulmanos que enxergam nela tudo que há de errado na sociedade secular de Israel.

Há algum problema de racismo?

Israel é um país de gigantesca diversidade cultural. Em primeiro lugar, a população do país não é composta apenas de judeus, mas também de árabes muçulmanos e árabes cristãos, além de grupos menores como bai’hai, os drusos (mais uma variação de muçulmano) e samaritanos (religião aparentada do judaísmo, mas com significativas diferenças). Mesmo entre os judeus, existem grandes divisões, de acordo com a região da qual cada grupo se originou, o que reflete em certas diferenças nas respectivas leituras dos textos religiosos.

Por isso, poderia se pensar que seria um país imune ao racismo. Infelizmente essa não parece ser a realidade. E esse racismo não existe apenas frente aos muçulmanos, diante da história recente do conflitos no país. O preconceito existe ainda entre os próprios judeus. É nesse sentido, por exemplo, a reclamação dos judeus de origem etíope (chamados de beta israel ou falashas), que se queixam do racismo do qual seriam vítimas por parte principalmente dos judeus de originários da Europa, tanto aqueles que vieram da Alemanha e da Europa Oriental (chamados de ashkenazim) quanto os descendentes daqueles que foram expulsos da Espanha no final do Século XVI (chamados de sephardim). Esse suposto preconceito já deu origem a grandes manifestações de rua por parte dos judeus etíopes.

Todavia, todo esse problema não deve preocupar o turista. Você vai encontrar em Israel bem menos preconceito do que em qualquer metrópole da Europa Ocidental. Como dissemos antes, o povo da região é muito aberto e receptivo. Você vai adorar conhece-lo!

Diversidade cultural em Jerusalem.

Diversidade cultural em Jerusalém.

Israel e os Territórios Palestinos constituem um micro-cosmo do Oriente Médio. Uma terra que luta para sair da encruzilhada que se encontra. De um lado, a cultura ocidental e a economia capitalista e globalizada. De outro, os ditames da tradição, o medo de perder a sua identidade e a sua autonomia diante das Potências Ocidentais.

Israel luta contra tensões difíceis de serem reconciliadas. Quer ser uma democracia, mas também manter a sua capacidade de agir devidamente para preservar a existência do país. Quer ser um país pluralista, mas teme que se aceitar de volta todos os refugiados palestinos, Israel perderá a sua natureza judaica. Quer se apresentar como parte do Mundo Ocidental, mas repetidamente ataca brutalmente os Territórios Palestinos, para controlar os militantes fundamentalistas, o que lhe traz a devida e correta reprovação do Ocidente. É um lugar que um povo perseguido durante séculos busca construir um novo futuro, mas repete velhos erros e é atrapalhado pelos fantasmas de longuíssima história da região.

Todavia, é também um lugar repleto de alegria, e de inúmeros experimentos sociais que deram certo, o que é um testamento à inteligência e a inventividade de um povo que não cansa de se reinventar. É impossível não se encher de admiração pela potência do espirito humano diante dos milagres realizados por Israel nos poucos anos de sua existência.

Mas isso não é tudo sobre a Terra Santa. Em um post, trataremos das inúmeras atrações que existem no país. Assim, fiquem ligados no blog.

Memorial do Holocausto, Jerusalém.

Memorial do Holocausto, Jerusalém. Cada peça da obra representa uma das vítimas do Shoah. Emocionante.

2 comentários

1 menção

  1. Vitória Regina Filafelfo Lobo

    Gostei muito. As informações estão muito bem sequenciadas, numa amostragem clara, objetiva do que caracteriza Israel.

    1. Bernardo

      Vitória,
      Desculpe-nos pela demora na resposta, e obrigado pelos elogios.
      O post sobre Israel foi um dos mais desafiadores do blog. O país é muito rico de história e cultura!
      Grande abraço.

  1. Roteiro para a Terra Santa: Tel Aviv, Jerusalém e Belém - Borboletando por aí

    […] é o nosso segundo post sobre a Terra Santa (clique aqui para ver o post introdutório), e o primeiro de uma pequena série que busca descrever com detalhes […]

E o que você achou dessa viagem? Não deixe de compartilhar com a gente as suas impressões!