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set 12

VIAJAR PARA O JALAPÃO: Os paradoxos do “sertão das águas” e da delicadeza no seu estado bruto – Parte 1

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Depois de uma caminhada boa para esquentar as pernas, temos essa visão de arrebentar qualquer coração. Nascer do sol na Serra do Espírito Santo.

Imagine um lugar seco, rodeado de verde, de solo arenoso, de cachoeiras límpidas, de piscinas naturais de mais de 30 metros onde se é impossível afundar, serras em forma de tabuleiros, vegetação retorcida, com mais de 4 mil tipos de plantas que só existem lá, com onça parda, negra e pintada, com dunas de 200 metros de areia fininha cercadas pelas veredas dos buritis, aqueles mesmos que “belimbezam” qualquer paisagem, na perspectiva de Riobaldo, no Grande Sertão Veredas, do mestre Guimarães Rosa. Esse aí é o Jalapão.

Venha e viaje para o Jalapão com a gente, o coração do Brasil!

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A incrível beleza, na seca, da cascata do rio do Sono.

O que é o Jalapão?

Jalapão é uma região de 34 mil km², que envolve 8 municípios (os principais são Mateiros, Novo Acordo, Ponte Alta do Tocantins e São Félix do Tocantins), localizada no Estado de Tocantins, a 190 km de Palmas. O local é conhecido como o “sertão das águas”, tendo em vista sua baixa densidade demográfica, quase 1 habitante por km², semelhante à Amazônia, e pelo seu rico potencial hídrico. Por apresentar um solo arenoso, decorrente de sua história geológica, pois a região fora o fundo do mar há mais de 350 milhões de anos, a região não atraiu a ocupação humana, o que a preservou bastante, sendo considerado um dos locais de natureza mais intacta do país. Isso quer dizer também que a região é de difícil acesso, pois, dos 800 km que envolvem o contorno da região pelos atrativos, grande parte deles são percorridos por estradas de terra em condições difíceis. Assim, um 4×4 é essencial para explorar a área.

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Paisagem clássica do Jalapão: poeira, serra, cerrado e ninguém a vista.

O nome Jalapão tem origem de um tubérculo medicinal comum na região, semelhante à batata, conhecido como “Jalapa”, de cujo extrato se combate febres e também vermes. A primeira reportagem sobre o lugar foi feita nos anos 1990, pela Revista Terra, apenas um ano depois da instituição formal da capital do novo Estado Tocantins. Aliás, o nome “Tocantins” significa “bico de tucano” em Tupi, devido à forma de um dos vértices do triângulo que compõe o Estado. Contudo, o Jalapão só adquiriu fama em meados de 2000, por meio do artesanato do Capim-Dourado, na exposição do “Ano do Brasil na França”. Desde lá, o turismo começou a se desenvolver, mas não ao ponto de contar com boa rede hoteleira e de alimentação. Assim, se você gosta de natureza rústica, com instalações simples e comidinha da roça, o Jalapão é uma boa dica de passeio.

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Tranquilidade às margens do rio Soninho.

Quando ir?

É possível viajar para o Jalapão em todas as épocas do ano, mas as paisagens podem ser um pouco diferentes. Se você prefere fotos mais vivas e relativamente límpidas, vá na época da seca (maio a setembro). Contudo, as temperaturas são altas, podendo chegar fácil a 40º C. Nada que as deliciosas cachoeiras da região não lhe refresquem. Além disso, na seca, é comum avistar queimadas tanto naturais como provocadas pelos criadores de gado a fim de promover um rápido crescimento do pasto. Assim, a fumaça das queimadas pode prejudicar a visibilidade do horizonte. Outro probleminha da seca é que as estradas ficam piores, a areia fica remexida e fofa, por conta da grande movimentação de turistas, o que facilita bastante os atolamentos. Fomos em setembro e achei perfeita a época. Não pegamos chuva dia algum e, apesar de haver queimadas, não houve prejuízo do passeio. Além disso, com a habilidade do nosso guia, não atolamos sequer uma vezinha… agora, vimos bastantes carros em dificuldades de locomoção.

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É comum, na época da seca, presenciar queimadas como essa no cerrado. Interessante é observar no céus vários carcarás esperando apenas os pequenos mamíferos fugirem de suas tocas por conta do fogo para abatê-los.

A época da chuva (outubro a abril) tem suas vantagens. Apesar da chuva, que sempre é um incômodo aos passeios, as estradas ficam mais firmes e seguras. As temperaturas são mais amenas, mas não deixam de ser quentes. O problema é que as fotos podem ficar um pouco sem cor, diante da neblina.

Para quem adora uma festa tradicional, programe-se para ir na época da festa da colheita do Capim-Dourado, na comunidade quilombola de Mumbuca. O festival ocorre em meados de setembro, quando o capim-dourado já está prontinho para ser colhido e processado.

Em julho é a temporada das praias no Jalapão e todas as cidadezinhas (São Félix, Novo Acordo, Ponte Alta e Mateiros) montam palcos na beira dos rios, que têm aquela areia fininha e paisagem maravilhosa. Contudo, há shows durante o dia e à noite e, como o ritmo preferido da região é o sertanejo/forró, se você busca tranquilidade, é melhor evitar essas festas.

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Na seca, a cachoeira da Velha fica bem mais acessível e, na nossa opinião, mais bonita.

Como ir?

A entrada tradicional do Jalapão é feita pelo município de Novo Acordo, que fica a 191 km de Palmas. Assim, primeiro você deve chegar a Palmas de avião, de ônibus ou de carro. Há voos diários de Brasília a Palmas pela Gol, Tam e Sete, com promoções eventuais. A viagem dura só uma hora e pouco. O aeroporto da cidade é pequeno, mas confortável pela demanda.

É possível também chegar lá de ônibus. Saindo de Brasília, há as empresas Transbrasiliana e Real Expresso, com a passagem em torno de R$ 120,00 o trecho, com viagens noturnas de 13 ou 14 horas, saindo às 18h30 e chegando a Palmas às 8h00.

De carro, são 973 km de Brasília a Palmas e a viagem pode ser bem cansativa, já que depois de chegar a Palmas, começa a aventura com até 800 km de estrada, grande parte sem pavimentação asfáltica. Se optar por carro, lembre-se que para desbravar o Jalapão você precisará NECESSARIAMENTE de um 4×4 e isso não lhe isentará de atolamentos, a depender da sua perícia como motorista. Mas pode ser um tempero à aventura…

Para os mais malucos, digo aventureiros, Jalapão é sinônimo de rali… de jipes, de motocicletas, e até bikes. Assim, há várias pessoas que desbravam a região com grupos de amigos, conhecendo a natureza e a desafiando de pertinho. Vimos vários motociclistas nas pousadas muito alegres e cheios, lotados, de poeira. Não é muito a nossa praia… mas há quem goste!

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Aproveite para se aventurar no rafting nas águas do rio Novo. Tivemos uma ótima experiência com a empresa Nova Aventura.

Com quem ir?

O Jalapão é lindo, mas pouco explorado, o que significa: quase não há placas, sinalizações, indicando os atrativos e nem as cidades próximas. Logo, para otimizar bastante o tempo, é melhor ter um guia local. Caso contrário, um dia inteiro será necessário para encontrar apenas uma cachoeira. Se o tempo não for problema e a aventura estiver em primeiro lugar, é possível desbravar o local com seu 4×4, só lembrando que sua arte na condução será colocada em prova. Mas se o seu negócio é relaxar, contrate um guia ou uma empresa com um pacote com as atrações.

Há inúmeras empresas e também preços. A mais divulgada é o acampamento da Korubo e é a mais cara também. Essa empresa simula um acampamento selvagem do modelo daqueles africanos, instalando as acomodações, relativamente confortáveis, na beira do Rio Novo. A Korubo foi uma das primeiras empresas a explorar a região e seu roteiro, atualmente, em comparação com as demais, é meio restrito, na nossa opinião. Por exemplo, são necessários muitos dias para fazer menos coisas do que um roteiro normal de quatro dias em outras operadoras. Além disso, como o deslocamento dela no Jalapão é feito por meio de um caminhão adaptado, com bancos na carroceria, a mobilidade rápida é prejudicada, não sendo possível otimizar o tempo. O preço também não é muito atrativo e as viagens são feitas como expedições, ou seja, várias pessoas no grupo, com diferentes perfis e interesses. Mas há quem goste.

No nosso caso, fizemos o passeio com um guia particular, o Fernando, da Livre Expedições (clique aqui, para conhecer mais sobre essa excelente agência), e o recomendamos muito. O pacote foi de quatro dias, o necessário para conhecer quase todos os atrativos da região. Começa em Palmas e termina no aeroporto de Palmas, ou seja, não há qualquer preocupação. O tour inclui café-da-manhã, almoço, jantar (bebidas à parte), hospedagem, entrada nos atrativos, grandes deslocamentos, explicações sobre a região, e é feito numa caminhonete confortável. O Fernando, nativo da região e do mundo, é ótimo, engraçado, muito esperto e estratégico, pois ele sempre dá um jeito de chegar aos atrativos antes de outros visitantes para você curtir o ambiente com privacidade. Além disso, ele fala francês e inglês.

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Fernando e seu jalapa-móvel! Guia super gente fina e experiente da região. Recomendamos muito!

Sem um pacote fixo, é difícil alimentar-se na região, porque não há muitas opções de restaurantes e, muitas vezes, os poucos que há não apresentam muita qualidade. No nosso pacote, toda a comida já estava incluída e, como o nosso guia é nativo, provamos da culinária local nas casas das pessoas mesmo, que geralmente servem almoço aos turistas. Tudo foi muito gostoso. Contudo, encontrar esses locais, que ficam, na maioria das vezes em fazendas, é muito complicado, e a oferta de comida demanda agendamento.

Para os malucos das motocicletas, existe uma empresa de São Paulo que organiza o rali, oferecendo, inclusive as motos novinhas. Para saber mais, visite aqui o site www.expedicaojalapao.com.br. Quando crescermos, quem sabe a gente não encara essa aventura?

A galera do pedal vai pirar com as paisagens, a poeira e as subidas do Jalapão. A partida é do município de Ponte Alta, a 190 Km de Palmas. Se você está com as pernocas em dia, clica aqui para saber mais informações: http://espn.uol.com.br/post/395748_o-tocantins-que-pedala-bike-e-legal

Quanto tempo ficar?

Conversei com várias pessoas por lá e um bom período para visitar o Jalapão com certa tranquilidade, conhecendo os principais atrativos da região e não enjoando da paisagem, são quatro dias. Assim, um feriado resolve o passeio. Contudo, é claro que se você quiser ficar mais tempo curtindo as cachoeiras e rios, é possível, mesmo porque o Parque Estadual do Jalapão é enorme e possui várias outras atrações nem tão visitadas pelos turistas.

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Pedra furada.

O que levar?

De fato, a região é meio inóspita e dificilmente você encontrará os produtos que gosta por lá. Assim, mesmo contratando um pacote com guia, protetor solar e repelente são essenciais. Chapéu também é importante, mas se você preferir pode comprar um lá de capim-dourado e ainda trazer uma lembrança do local. Contudo, só há modelos femininos. Assim, meninos levem seus chapéus ou bonés.

Uma boa bota para caminhar ajudará bastante, principalmente, se você quiser assistir ao nascer do sol depois de fazer a trilha da Serra do Espírito Santo. A bota de trekking é um bom investimento se você curte um mato, porque ela dificulta lesões nos tornozelos, além de ser ótima para dar passos mais largos! Se você não tiver, separe um tênis mais velhinho e confortável.

Camisetas leves, de preferência de material dry fit (porque seca rápido), são ótimas dicas, tendo em conta o calorão do lugar. Não leve calça jeans, são pesadas e calorentas. Prefira as calças de dry fit, tactel, ou lycra, mesmo porque você precisará de mobilidade para visitar, a todo momento uma cachoeira, um atrativo. Assim, já saia com a roupa de banho e uma roupa leve.

Para caminhar pelas cachoeiras, dunas e veredas, não há muita dificuldade. Assim, leve uma sapatilha leve ou a prova d´água, que seque rápido. Dessa forma, você não perderá muito tempo em ficar calçando meia e tênis toda hora. Chinelos do tipo havaianas são legais também, mas o melhor seria algo que fica preso ao pé. Papetes ou sapatilhas são ideais.

As principais refeições estão incluídas e há barras de cereal no carro, mas se você quiser algo a mais, como, biscoitos, salgadinhos, frutas, leve de sua cidade. Atente-se também para sempre reabastecer suas garrafinhas de água nas pousadas. A região é muito seca e é propícia à desidratação.

Essencial levar também sua malinha de remédios. Já falamos sobre isso AQUI, onde há dicas fundamentais para não ficar dodói na viagem.

Seja econômico na sua mala. Afinal, sua liberdade é proporcional ao tamanho da sua bagagem.

E aí, depois de todas essas dicas, ficou animado em viajar para o Jalapão? Próximo post que já está AQUI, vamos falar de cada atrativo! Aguardem!!

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O buriti belimbelezando a paisagem no pôr-do-sol nas dunas do Jalapão.

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Fervedouro, uma das principais atrações do Jalapão, onde você nada e nunca afunda!! Esse é o fervedouro do Ceiça! 

Ficou animado para fazer as malas já? Clica aqui para ver o que há de melhor no Jalapão! Conheça os principais atrativos da região nesse próximo post!

4 comentários

2 menções

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  1. Lazara Maria da Silva

    JALAPÃO UM PARAÍSO SELVAGEM!
    Achei muito boa esta reportagem ,ela descreveu o nosso Jalapão muito bem ,Parabéns vocês estava com um ótimo guia o Fernando Jalapão .Só uma pequena observação ,a entrada tradicional do Jalapão é feita pelo município de Novo Acordo, que fica a 191 km de Palmas, eu não concordo .
    A entrada tradicional do Jalapão é feita por Ponte Alta o Portal do Jalapão, que fica a 152 km de Palmas.
    Saindo de Palmas, Taquaralto, Taquaruçu, Buritirana, Santa Tereza e Ponte Alta do Tocantins considerada o Portal do Jalapão.
    Saindo de Palmas 7:30h bem aqui no nosso município já visitamos ( Pedra Furada, Cachoeira do Soninho , cachoeira da Fumaça ) no dia seguinte saindo para os outros passeios do Jalapão. O mas esta perfeito e muito obrigado por escrever tão bem o que é o Jalapão, suas fotos linda adorei .

    1. Cyntia

      Olá Lázara!
      Ficamos muito felizes com seu comentário! Obrigada também pela observação quanto à “entrada” do Jalapão. É verdade, pois esqueci de mencionar que é possível fazer o roteiro invertido, já que os municípios acabam formando um círculo na trajetória da região. O Fernando escolheu esse caminho para evitar a concentração de turistas nos atrativos, de modo que pudéssemos ter mais privacidade! Sábado agora vamos postar novamente outro texto sobre o Jalapão, agora com os atrativos individuais! Não perca! Bjus!

  2. Fernanda

    Fiquei ainda mais instigada a viajar para o Japão, adoro paisagens inóspitas e de pouco movimento!!! Quando for, seguirei boa parte das suas recomendações. O lugar é maravilhoso e suas fotos estão ratificando isso. Obrigada pelo relato!

    1. Cyntia

      Muito obrigada, Fernanda! Que bom que você curtiu e se inspirou a visitar o Jalapão. Sábado teremos um novo post sobre a região, agora com as atividades/atrativo que há por lá para fazer! Acho que você também vai gostar! Bjus!!

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