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out 03

Sunitas e Xiitas, Parte 2: As Diferenças

Irã - Teerã (10)

Teerã, Irã. O Dia do Ashura reune todos na rua: crianças, jovens, adultos, velhos, homens e mulheres. Mesmo em uma grande metrópole como Teerã, todos vão na rua sociabilizar com os vizinhos. E tem comida de graça também!

A partir da história que contamos no nosso post anterior sobre a origem da divisão entre sunitas e xiitas (clique aqui para acessá-lo), parece que os sunitas foram os que ficaram do lado de Muawiyah e de seu filho Yazid, enquanto os xiitas, do lado de Ali e seus filhos. E mais, parece que os xiitas eram os mocinhos da história. Contudo, a questão é mais complicada, até porque, na época desses conflitos, não existiam sequer essa divisão entre sunitas e xiitas. Além disso, hoje em dia tanto sunitas quanto xiitas olham para a Dinastia Omaída com relativo desprezo.

Na verdade, a principal diferença entre sunitas e xiitas reside na sucessão da autoridade secular e religiosa de Maomé após a sua morte. Como se verá, Muawiyah desprezou o entendimento tanto dos sunitas quanto dos xiitas, ao indicar Yazid como seu sucessor.

Então, viaje com a gente novamente e descubra mais sobre esses dois grupos, cujas diferenças e conflitos ajudou a  construir o Mundo Muçulmano.

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Mapa do Oriente Médio. As regiões avermelhadas são aquelas onde existe uma significativa população xiita. Entre os países com uma grande população xiita, destacam-se o Líbano, o Irã e o Iraque. É no Iraque que estão situados dois dos principais santuários xiitas, o Túmulo de Ali em Najaf e o Túmulo de Hussein em Kerbala.

Para os sunitas, Maomé não teria indicado o seu sucessor. Por consequência, a herdeira da sua autoridade foi a própria Comunidade Muçulmana. É por isso que os sunitas reconhecem a legitimidade dos quatro primeiros califas, uma vez que eles foram escolhidos pela Comunidade, ou ao menos pelos seus principais líderes, com base no seu mérito individual, e não por razões de hereditariedade. É por isso ainda que a Comunidade Muçulmana exerce diretamente parte da autoridade religiosa através da “ulema”, o grupo de estudiosos que se dedicam ao exame e a interpretação dos textos religiosos, como o Corão e os Hadith, a coletânea de dizeres e atos do Profeta Maomé, que são tidos, principalmente pelos sunitas, como revelação divina.

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Teerã, Irã. Seja na sua vertente sunita seja no xiita a segregação entre homens e mulheres é uma infeliz marca da islamismo tradicional. Não há como negar isso. Tal ideia está presente até mesmo na organização da mesquita. As mulheres entram no templo por uma entrada só para elas, e oram em um espaço separado. Tudo isso está indicado nos Hadiths. Aliás, de acordo com os Hadiths, é inclusive preferível que a mulher ore em casa, ao invés de se socializar na mesquita, que, dessa forma, é um espaço predominantemente masculino.

De certa forma, os Hadith aproximam-se muito dos Evangelhos no contexto do Cristianismo. Tanto um quanto outro são relatos de terceiros acerca da vida e dos dizeres de grandes líderes religiosos, aos quais, posteriormente, foi atribuída a qualidade de revelação divina. Veja que o Corão é tido como a palavra direta de Deus, transmitida para Maomé pelo Anjo Gabriel, e não apenas a palavra inspirada por Deus. O Corão retrata as palavras de Deus, e não de Maomé, que, nesse contexto, funcionaria como um boneco de ventríloquo. Assim, o correspondente do Corão, no Cristianismo, não é a Bíblia, mas sim Jesus Cristo, a palavra de Deus feita carne. E só vale em árabe, pois Corão traduzido não é Corão. O desconhecimento dessa circunstância torna, às vezes, muito difícil, para nós ocidentais, entender a reação extrema dos muçulmanos diante da destruição de exemplares do Corão.

Isso é muito importante: para os sunitas, toda norma decorre do Corão e dos Hadith, sem espaço para inovação, ao menos não de forma expressa, pois toda interpretação é, na realidade, uma forma de criação. A palavra sunita vem de sunnah, palavra árabe que significa “o caminho mais fácil”, no caso, o caminho mais fácil para a salvação, pois ancorado nos dizeres e feitos de Maomé e das primeiras gerações do Islã, tidas como as mais sábias de todas. Tal Era de Ouro coincide com o período em que o Islã, liderado pelos sunitas, alcançou o auge do seu poder político e de inovação intelectual.

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Foto do Corão bilingue, em árabe e em inglês. A relação entre sunitas e xiitas não é constituída apenas por conflitos e diferenças. Há também pontos de convergência. Os dois grupos consideram que Deus é um só, e defendem que Maomé foi o seu último mensageiro. Além disso, diferente do que ocorre no cristianismo, em que circulam diversas versões da Bíblia, existe uma só versão do Corão (sempre em árabe) circulando em todo o Mundo Muçulmano, embora a interpretação do texto varie entre as diversas linhas de pensamento.

Já para os xiitas, a autoridade religiosa foi estabelecida de forma bem diferente. Eles entendem que Maomé indicou Ali como seu sucessor, e, dessa forma, a sua autoridade secular e religiosa teria sido transmitida para Ali, e para os descendentes homens de Ali e Fátima, filha de Maomé. Os sucessores do Profeta seriam chamados de Imãs, e o Primeiro Imã teria sido Ali, o Segundo Imã, Hassan, o Terceiro Imã, Hussein, e assim sucessivamente. O Imã de uma geração é sempre escolhido pelo Imã da geração anterior. As diferentes correntes do xiismo divergem sobre o número de imãs que já existiram. Alguns dizem que foram 5 (xiismo zaidi), um outro grupo, 7 (xiismo ismaili), outros, que foram 12 (xiismo dos 12 imãs ou duodécimo, é o maior dos sectos), e por aí vai.

Mesquita do Imã Ali, Najaf, Iraque.

Mesquita do Imã Ali, Najaf, Iraque. Supostamente Ali está enterrado nessa mesquita. Uma das principais críticas que os sunitas fazem aos xiitas é que eles colocam Ali no mesmo patamar de Maomé, o que, para a imensa maioria dos xiitas, não é verdadeiro.

Independentemente do número de Imãs reconhecidos, em todos as linhas do xiismo, o último Imã desapareceu misteriosamente, e aguarda aqui na Terra, em um esconderijo, e ficará ali até pouco anos antes do Dia do Julgamento Final, quando ele finalmente retornará, como Al-Madhi. É a chamada “Ocultação do Imã”. Ao longo da história, vários líderes carismáticos já se autodenominaram o Imã Oculto, o Madhi, mas o Fim do Mundo aparentemente ainda não chegou. No grande dia, o Madhi não estará sozinho, pois os xiitas acreditam que Jesus (esse mesmo do Cristianismo – Isa, em árabe) irá voltar virá com ele e juntos terão que unir forças para derrotar Masih ad-Dajjal, o Anti-Cristo. Lembrem-se que, para o Islã, Jesus é o Messias dos Judeus, embora não seja o Filho de Deus. Essa preocupação com o Fim dos Tempos é um dos principais elementos do simbolismo xiita, juntamente com o martírio, bem ilustrado pelo sacrifício de Hussein e no Dia do Ashura, como vimos no post anterior desta micro-série (clique aqui para ler esse primeiro post).

Os sunitas também acreditam no Madhi, no retorno de Jesus e no Juízo Final, mas não é um problema central para eles.

Assim, com a sua preocupação com mártires, salvadores e o Fim dos Tempos, o xiismo acaba se aproximando mais do cristianismo, ao menos nesse aspecto. Isso não é surpreendentes, pois o cristianismo, o judaísmo e o islamismo são religiões abraâmicas, como visto no nosso primeiro post sobre o Mundo Muçulmano (clique aqui, para lê-lo).

Praça Naqsh-e Jahan, Isfahan, Irã. A Dinastia Safavida foi responsável por converter do islamismo sunita para o xiita a região da Pérsia, atualmente Irã. Ela é também responsável pelos mais grandiosos monumentos do país, caracterizados pelos seus lindos azulejos azuis e amarelos.

Durante a maior da história, os xiitas viveram oprimidos sob governos sunitas sob intensa perseguição. Muitas vezes, eram tidos como apóstatas, cuja pena era a morte. A perseguição era tanta que a religião xiita passou a admitir que se mentisse para estranhos sobre a real filiação espiritual dos seus seguidores. Por tudo isso, a religião xiita é marcada por um intenso discurso de sofrimento, que é reforçado pela ideia de martírio, predestinação e Juízo Final. Século após século, os xiitas suportaram esses percalços passivamente, sempre na esperança que o Imã Oculto iria retornar, e estabelecer um reino guiado pelo verdadeiro Islã.

Sim, os xiitas são os “emos” do Mundo Muçulmano, só falta a franja.

Teerã, Irã. O Dia do Ashura é celebrado tanto por sunitas quanto por xiitas. Para os sunitas, a comemoração refere-se principalmente ao Êxodo do judeus do Egito, guiados por Moisés. Para os xiitas, é um dia de lamento pela Batalha de Kerbala, pela morte do neto de Maomé, Hussein (se quiser saber mais sobre o Dia do Ashura, clique aqui).

O Imã possui a autoridade para inovar a religião, para além daquilo escrito no Corão e nos Hadith (aliás, os Hadith dos xiitas são diferentes dos Hadiths dos sunitas). Somente o Imã pode interpretar o sentido da mensagem divina, bem como o seu significado esotérico, ou seja, o sentido secreto das escrituras. O Imã não é um profeta, pois não recebe uma revelação divina, mas ele é guiado por Deus, e, portanto, é infalível.

Isso torna o islamismo xiita, em tese, mais aberto, inclusive porque se acredita que o Imã Oculto é capaz de enviar mensagens para os seus fiéis, a partir do seu esconderijo. Há quem acredite que o Aiatolá Khomeini, aquele mesmo da Revolução Islâmica Iraniana, recebia mensagens do Imã Oculto. Aliás, alguns de seus seguidores mais devotadas acreditavam que ele eram o Al-Madhi, embora ele mesmo nunca tenha feito essa afirmação.

Mas não existe imã também nas outras correntes do islamismo? Sim. Imã significa líder em árabe e é usado em vários contextos. Por exemplo, a pessoa que lidera a prece é chamada de imã, mesmo que no contexto sunita.

[Foto: Wikipedia] Aiatolá Khomeini.

[Foto: Wikipedia] Aiatolá Khomeini. Na Revolução Islâmica do Irã, os xiitas passaram de uma postura de passividade para um de proatividade, ao se equiparem a Hussein na luta contra a suposta injustiça do regime do Shah, que era comparado a Yazid. Dessa forma, a Revolução teria sido uma repetição da Batalha de Kerbala, só que desta vez com a vitória do Bem, representado por Hussein e pelo Aiatolá Khomeini. Só que não foram só os fundamentalistas xiitas que fizeram a Revolução, que contou ainda com a participação de comunistas e liberais, que posteriormente foram neutralizados pelo novo regime teocrático iraniano.

Só para fazer um paralelo, a disputa teológica entre sunitas e xiitas sobre quem teria legitimidade para comandar a Comunidade dos Fiéis, assemelha-se muito com a disputa que existiu entre o Papa e, primeiro, o Imperador Romano e, depois, o Imperador do Sacro Império Romano-Germânico, no contexto do Cristianismo. Uma hora um estava por cima, e na seguinte era a vez do outro prevalecer, e assim o jogo caminhou até que a Reforma Protestante destruiu a possibilidade de qualquer um governar sobre uma cristandade unificada, mas isso é assunto para outra conversa.

O conflito entre sunitas e xiitas nos leva ainda a perguntar o que teria acontecido caso Jesus tivesse tido um filho ou uma filha, como retratado no livro “O Código Da Vinci”, de Dan Brown. Teria acontecido com o Cristianismo algo similar com o que ocorreu no Islamismo? Provavelmente, a história do mundo seria muito distinta.

[Fonte: Toshiro, Wikipedia] Santuário de Kerbala.

[Fonte: Toshiro, Wikipedia] Santuário de Kerbala, Kerbala, Iraque. É nesse templo que está enterrado Hussein, embora haja controvérsias. O Iraque abriga muitos importantes santuários xiitas, bem como uma grande população xiita, especialmente no sul do país. Se o Estado Islâmico conquistar o sul do país, certamente veremos um enorme massacre da população xiita, pois, para os fundamentalistas sunitas, os xiitas são apóstatas, e, por consequência, merecem a pena de morte. A disputa entre Muawiyah e Ali continua matando muçulmanos até o dia de hoje.

O rito sunita e o xiita diferenciam-se em pequenas coisas. Os sunitas rezam cinco vezes por dia, os xiitas, apenas quatro. A tradicional profissão de fé sunita “Não há nenhum deus que não seja Deus e Maomé é o Mensageiro de Deus”, os xiitas acrescentam “e Ali é o Amigo de Deus”. Os xiitas usam ainda uma pedrinha como anteparo entre a sua cabeça e o chão durante as preces diárias.

Por outro lado, tanto sunitas quanto xiitas acreditam que existe um único Deus (Alá, em árabe), e Maomé é o seu mensageiro. Concordam ainda sobre crença no Corão, como a palavra de Deus, e nos Cinco Pilares do Pilares do Islã, entre eles o Ramadã e a peregrinação a Meca, sobre os quais já conversamos em outro post (clique aqui, para lê-lo).

Além disso, tanto os sunitas quanto os xiitas acreditam que o conhecimento de Deus é absoluto. Deus conhece tudo o que aconteceu no passado, que acontece no presente e que acontecerá no futuro. Nessa medida, os muçulmanos entendem que o futuro já está escrito, e que a trajetória de sua vida já está predeterminada. A tradicional expressão árabe “Inshallah”, que significa “se Deus quiser”, reflete essa crença no destino e na predeterminação. Aproximadamente 90% dos muçulmanos acreditam em predestinação.

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Istambul, Turquia. Para o muçulmano, a oração envolve a genuflexão, ou seja, o ato de se ajoelhar e encostar a cabeça no chão. Com o fim de tornar esse ato mais confortável, as mesquitas são quase integralmente forradas com lindos tapetes. Na foto, vemos que alguns desses tapetes possuem uma tecnologia adicional: a demarcação do espaço dedicada à oração de cada devoto, de modo a preservar o espaço pessoal de cada um.

Tanto a diferença sobre a transmissão da autoridade secular e religiosa quanto as pequenas distinções de rito podem não parecer significativas para a nossa sensibilidade ocidental, mas foi e continua sendo razão para incontáveis conflitos e massacres. Nesse ponto, infelizmente islamismo e cristianismo se assemelham muito. Para se ter uma ideia do ódio entre sunitas e xiitas, em 1514, o sultão otomano Selim I, responsável pelo massacre de dezenas de milhares de xiitas, disse que o valor de matar um xiita seria equivalente a matar 70 cristãos. Os xiitas foram pesadamente perseguidos no Iraque, durante o governo do sunita Saddam Hussein.

O Islã não se incomoda tanto com o infiel, aquele que segue outra religião, especialmente caso se trate de uma religião do livro (cristianismo, judaísmo etc.). Contudo, para o apostata, para aquele que abandona o Islã, ou se desvia daquele Islã considerado como verdadeiro, a pena é a morte. E para o sunita o xiita é um apostata, e para o xiita, o sunita é um apostata. Outro fato interessante que, quando visitamos o Irã e conversamos com pessoas por lá, diante do notório conflito do país com Israel, em questão de “ódio”, um xiita suporta muito mais um israelense do que um sunita.

Irã - Teerã (1)

Nos hotéis do Mundo Muçulmano, é comum ser disponibilizado o Corão é um pequeno tapete para que os hóspedes possam rezar. Nos países xiitas, é disponibilizada ainda uma pedrinha, que serve de anteparo entre a cabeça e o chão, no momento da genuflexão.

A enorme diversidade do Islã não se esgota com a sua divisão entre sunitas e xiitas, pois eles possuem ainda  grandes divisões internas. O islamismo sunita nos deu tanto grandes pensadores da história da humanidade, como Al-Farabi e Avicena, quanto o terror e a selvageria da Al-Quaeda e do Estado Islâmico na Síria e no Iraque, além do islamismo humanista de Reza Aslam e o wahrabismo opressor patrocinado pela Arábia Saudita. Aliás, comparado com a Arábia Saudita, o Irã é um país liberal.

Tal diversidade interna está presente também no xiismo, que como vimos desde o seu começo está dividido em diversas linhas. É do movimento xiita que surgiu a a famosa Ordem dos Assassinos na época das cruzadas, cujas fortalezas no topo das montanhas podem ser visitadas, caso decida conhecer o Irã.

Aliás, a sofisticação do pensamento filosófico muçulmano, bem como a da sua música e principalmente da sua poesia, merece um post. Ou melhor, merece mais de post, um para cada um desses assuntos. É um tapa na cara de quem acha que o Islã é uma religião de violência e intolerância. Para se ter uma idéia, no Irã, o monumento mais visitado não é o mausoléu de um imã, uma mesquita, ou mesmo as ruínas dos antigos impérios persas, mas o túmulo de um poeta: Hefez.

E isso tudo sem contar a terceira grande divisão do Islã e talvez a mais interessante de todas: o sufismo, a tradição mística do islamismo, que busca, no sentido oculto dos ensinamentos de Maomé, a receita para se alcançar o sentimento de união com Deus.

Tudo isso e muito mais será objeto de novas conversas no futuro. Assim, não deixe de acompanhar o Borboleteando por Aí.

Irã - Y (27)

Yazd, Irã. Tanto o judaísmo quanto o islamismo levam muito a sério a proibição contra a idolatria (a adoração de ídolos). Por isso é muitíssimo raro encontrar a representar de um ser humano (qualquer que seja) em uma mesquita ou sinagoga. Isso faz com que, nessas culturas, tenham sido desenvolvidas outras formas de embelezamento dos lugares sagrados. Na foto, temos os lindos azulejos azuis e um padrão floral, muito comum nos prédios religiosos da Dinastia Safavida no Irã.

1 comentário

  1. Arlindo

    A religião será sempre complicada,pois foi criada pelo o homem.

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