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set 26

Sunitas e Xiitas, Parte 1: a Origem da Discórdia

Irã - Isfahan (73)

Praça Naqsh-e Jahan, Irã. Em razão desse beijo, o nosso guia quase foi preso pela polícia moral iraniana. Para o turista, a rigidez da lei religiosa é um mero incômodo. Mas para a população local é motivo de grande opressão. Sem conhecer as diferenças entre xiitas e sunitas, você não vai entender parte do que você vai ver e experimentar nesse apaixonante e problemático país.

O Islã é ainda hoje um grande mistério para muitos no Ocidente. Diariamente assistimos na Grande Mídia reportagens e relatos que mais mistificam e reforçam preconceitos do que propriamente esclarecem o assunto.

Quando se viaja para o Mundo Muçulmano, encontra-se um povo comunicativo e hospitaleiro, muito diferente dos barbudos mal-encarados retratados pela Grande Mídia. Nada melhor para destruir preconceitos do que viajar e encontrar essas pessoas, cuja cultura é sim diferente da nossa, mas igualmente rica e cheia de sabedoria. Fundamentalistas, assassinos e hipócritas existem em todas as religiões e culturas, basta olhar o Cristianismo e a nossa cultura européia, mas tal ou qual cultura não pode ser reduzida aos seus aspectos negativos.

Esses preconceitos contaminam até mesmo os próprios muçulmanos. Não é incomum, por exemplo, que, ao conversar com um sunita ele apresente uma ideia completamente distorcida de quais são as crenças de seus irmãos xiitas, mesmo porque dificilmente ele tenha conversado com um xiita ou estudado o assunto. Aliás, no Norte da África e no Oriente Médio, 40% dos sunitas não consideram que os xiitas sejam muçulmanos de verdade (clique aqui para ver mais detalhes dessa pesquisa), embora, no Iraque, país em que sunitas e xiitas vivem lado-a-lado, apenas 14% dos sunitas tem essa opinião, ao menos antes da invasão do país pelos EUA acirrar a disputa entre esses grupos.

Aliás, muitos muçulmanos identificam-se apenas como muçulmanos, sem se importar se importar com a divisão entre sunitas e xiitas, principalmente na Ásia Central e nos Balcãs.

Assim, o Mundo Muçulmano é um lugar muito variado e interessante. O objetivo do Borboleteando por Aí é mostrar não só lindas paisagens e monumentos, mas também a riqueza cultural e humana que encontramos em cada cantinho do mundo.

Em um primeiro post, já tratamos das principais características do Islã (clique aqui para ver), e neste agora exploraremos um dos assuntos mais importantes para compreender o Islã: a diferença entre sunitas e xiitas.

Assim, viaje com a gente mais uma vez para o fantástico Mundo Muçulmano, e descubra, na dolorosa divisão entre xiitas e sunitas, as raízes de uma das maiores culturas do mundo.

Santuário Fatima al-Masumeh, Qom, Irã. Qom é hoje um dos principais centros de ensino da teologia xiita, uma verdadeira fábrica de clérigos fiéis ao regime teocrático iraniano.

A divisão entre os sunitas e xiitas marca a paisagem cultural do Islã, embora a larga maioria dos 1,6 bilhões de muçulmanos que existem no mundo sejam sunitas, aproximadamente 80% a 90% do total de devotos. Apenas entre 10% e 15% dos muçulmanos são xiitas, e o restante divide-se entre os grupos religiosos menores.

A relação entre esses dois grupos varia no tempo e no espaço. Enquanto o governo xiita do Irã oprime a sua minoria sunita, os fundamentalistas sunitas do Estado Islâmico e do Talebã assassinam xiitas, bem como muitos outros grupos religiosos. Já em outros lugares se admite o casamento entre membros dos dois grupos, como no Iraque e no Líbano.

Aliás, já que falamos de Estado Islâmico e do Talebã é bom frisar que esses grupos seguem uma versão radical e fundamentalista do islamismo sunita. Eles nada têm a ver com os xiitas. Na verdade, são inimigos destes. Isso é importante porque, no Ocidente, especialmente depois da Revolução Islâmica no Irã, associou-se os xiitas com radicalismo. Aqui no Brasil é comum chamar alguém de xiita, quando se quer acusar-lo de radicalismo. Isso é mentira, talvez resultado da propaganda negativa produzida para atingir o governo iraniano. Tanto xiitas quanto sunitas possuem os seus radicais, bem como cristãos, judeus e hindus. Infelizmente, intolerância e ódio não são monopólio de qualquer religião ou ideologia.

corao_de_uthman

Nesse prédio, está o chamado Corão de Uthman. Supostamente o terceiro Califa, Uthman, estaria lendo este exemplar do Corão, quando foi assassinado. Dá para ver a mancha de sangue que tal ataque teria deixado no livro. Contudo, a caligrafia utilizada no manuscrita data, no mínimo, do Califado Omaída, o que afasta a hipótese de o livro ser verdadeiramente da época dos primeiros califas.

Mas afinal como surgiu essa divisão entre sunitas e xiitas?

No ano 632 DC, morreu o profeta Maomé, e com isso chegou ao fim a revelação de Deus. Todavia, como os seus dois filhos homens morreram antes do Profeta, ficou em aberto a questão da sucessão. Quem seria o novo chefe da Comunidade dos Fiéis (Umma, em árabe)? Parte dos seguidores de Maomé defendiam que o novo líder deveria ser escolhido por consenso da Comunidade, representada pelos seus principais líderes, e outro grupo sustentava que o novo líder deveria ter origem na linhagem da família do Profeta. Prevaleceu o primeiro grupo e Abu Bakr, um dos melhores amigos de Maomé, foi escolhido o primeiro Califa, em detrimento de Ali, primo e genro de Maomé, casado com a filha deste, Fátima. O nome xiita vem do árabe “Shi’a ‘Ali”, ou “Partido de Ali”. Era ainda uma divisão política, sem maiores repercussões religiosas.

Califa significa sucessor em árabe. O nome foi escolhido porque o ocupante desse cargo seria o sucessor da autoridade secular e religiosa de Maomé, mas não de sua posição de profeta, pois, para o Islã, Maomé foi o último profeta.

[Fonte: historyguy.com] Mapa da Conquista Árabe.

[Fonte da foto: historyguy.com] Em poucos anos, a Conquista Árabe extinguiu o milenar Império Persa e transformou o Império Romano em uma sombra de si mesmo. Nessa fase inicial, a religião muçulmana estava ainda engatinhando, e não possuía a forma que conhecemos hoje em dia.

Abu Bakr foi o responsável por consolidar o domínio maometano na Península Arábica. Ele foi sucedido, na posição de Califa, por Umar, responsável pela vitória árabe sobre o Império Romano e o Império Persa, exaustos depois de uma longa e épica guerra entre ambos. Depois, Uthman tornou-se Califa e foi o primeiro a consolidar toda a Revelação trazida por Maomé em um só livro: o Corão. Por fim, Ali foi eleito como o Quarto Califa. Na tradição suni, esses quatro primeiros governantes são chamados de Rashidun, que significa “Califas Corretamente Guiados”. Com exceção de Abu Bakr, todos os demais foram assassinados, o que revela a discórdia interna existente entre os fiéis já nos primeiros dias do Islã.

Nas mesquitas suni, não é incomum encontrar o nome dos quatro Rashidun escrito com caligrafia estilizada nas paredes e/ou nos tetos dos prédios, juntamente com o nome de Maomé e de Deus (Alá). Por sua vez, os xiitas reconhecem e homenageiam somente Ali e seus descendentes, como herdeiros legítimos de Maomé. Assim, o nome dos demais Rashidun não é encontrado nas mesquitas xiitas, mas sim os nomes de Hassan e Hussein. Essa é uma dica importante para você, já de cara, dizer se se trata de um templo sunita ou xiita!

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Aya Sofia, Istambul, Turquia. Construída por Justiniano como uma colossal Igreja Cristã, a Aya Sofia foi transformada em Mesquita após a Queda de Constantinopla em 1453. Como a maioria das grandes mesquitas sunitas, a Aya Sofia passou a ter o nome de Alá, Maomé e dos quatro Rashidun inscritos em grandes discos que ornam as paredes do templo, como se vê na foto.

Com o assassinato de Ali, surgiu verdadeiramente a origem a divisão entre sunitas e xiitas. Hassan, filho de Ali e Fátima, tornou-se o Quinto Califa, mas não pôde prevalecer perante o grande exército de Muawiyah, então governador da Síria, que já tinha no passado se rebelado contra Ali. Hassan abdicou em favor de  Muawiyah. Foi o fim da Era dos “Califas Corretamente Guiados”.

O irônico é que o pai de Muawiyah combateu o Islã até a conquista de Meca por Maomé em 630, e depois o filho, Muawiyah, tornou-se o líder da comunidade muçulmana.  Hassan morreu em Medina em 670, envenenado por sua esposa, supostamente a mando de Muawiyah. Nessa altura do texto, Muawiyah já está parecendo vilão de novela, mas ainda tem mais.

O acordo de paz entre Muawiyah e Hassan previa que, após a morte do primeiro, o próximo Califa deveria ser escolhido por consulta à Comunidade de Fiéis, e que Muawiyah não poderia simplesmente escolher o seu filho como próximo Califa. Mas foi exatamente isso que ele fez, na cara dura. Após a morte de Hassan, Muawiyah indicou o seu filho Yazid como seu sucessor. Estava consolidada então a Dinastia Omaída, nome da tribo de Muawiyah e Yazid, a primeira dinastia a governar o Mundo Mulçumano, cuja capital ficava na bela Damasco, hoje a capital da Síria, país que está sendo destruído pelo grupo terrorista Estado Islâmico.

[Fonte: Wikipedia] Mesquita Omaída.

[Fonte da foto: Wikipedia] Mesquita Omaída, Damasco, Síria. Construída durante a Dinastia Omaída, no local de uma basílica cristã que supostamente guardava a cabeça de João Batista, os muçulmanos acreditam que é nessa mesquita que Jesus retornará no Fim dos Tempos. Além disso, é aqui que está enterrado o grande Saladino! Esse extraordinário monumento ainda não foi destruído ou danificado pela guerra civil na Síria. Esperamos que continue assim, e que esse extraordinário local não tenha o mesmo triste destino de Palmyra e Nineveh e Aleppo.

O Partido de Ali indignou-se com esse movimentos. Muitos cobravam de Hussein, o filho mais novo de Ali, que liderasse uma revolta contra essa situação e contra o governo de Muawiyah que era considerado injusto. Hussein respondia que iria respeitar o acordo de paz que Hassan tinha celebrado com Muawiyah. Ele não iria jogar o mesmo jogo sujo de Muawiyah. E então Muawiyah morreu.

O Domo da Rocha

[Fonte da foto: Wikipedia] O Domo da Rocha, Jerusalém, Israel. Construído na Dinastia Omaída, hoje em dia os muçulmanos consideram que foi a partir de uma pedra localizada dentro do Domo da Rocha que Maomé partiu para o seu encontro com Deus, onde lhe foi revelada as regras da oração. É o chamado Mi’raj.

Com a morte de Muawiyah, Hussein atendeu aos pedidos de seus aliados e se dispôs a se tornar o líder de uma rebelião contra o novo Califa: Yazid. Ele viajou então para a cidade de Kufa, atualmente no Iraque, a fim de se unir aos rebeldes. Nunca chegou lá. Yazid soube desses planos e enviou as suas tropas para interceptar Hussein e sua escolta, que incluía toda a sua família, como mulheres e crianças. Os dois grupos encontram-se na planície próxima da cidade de Kerbala, também no Iraque. Aí aconteceu a chamada Batalha de Kerbala. Na verdade, não foi uma batalha, mas um autêntico massacre. Hussein, neto de Maomé, foi morto e decapitado, e sua cabeça entregue para o Califa Yazid I, neto do homem que Maomé derrotou ao conquistar Meca. A cabeça de Hussein ficou em exibição pública em Damasco e demorou séculos para que ela fosse reunida ao seu corpo. Outros dizem que hoje a cabeça de Hussein está em uma mesquita no Cairo, mas não pudemos vê-la, pois está sob sete chaves.

Esse ato de extrema violência marcou a divisão definitiva entre sunitas e xiitas, que persiste até os dias de hoje.

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Teerã, Irã. Muitos celebram por autêntica devoção o Ashura e a memória de Hussein. Outros ganham as ruas para demonstrar publicamente a sua suposta religiosidade, requisito indispensável para manter e melhorar a sua situação social na teocracia iraniana.

Irã - Teerã (13)

Teerã, Irã. Para além daqueles que participam para ficar de bem com o regime teocrático, é impossível assistir o Dia do Ashura e não se emocionar, com o sofrimento autêntico demonstrado por muitas pessoas, por um sujeito que morreu a quase 1500 anos atrás.

É impossível falar de Hussein sem falar do Dia do Ashura.

O Dia do Ashura é o feriado muçulmano em que é relembrado o êxodo dos judeus do Egito, guiados por Moisés (Musa, em árabe). Esse é o aspecto mais importante da comemoração para os sunitas. Sim, eles comemoram o fim da escravidão dos judeus no Egito, o que soa muito estranho no quadro geopolítico atual do Oriente Médio, no qual, em larga medida, o Mundo Muçulmano se opõe à simples existência do Estado de Israel.

É a data ainda da Batalha de Kerbala, e é sob esse aspecto que ela é especialmente importante para os xiitas.

Um dos elementos mais chamativos do Dia do Ashura, na tradição xiita, é a auto-flagelação pública. Isso mesmo, as pessoas se golpeiam nas costas com algo parecida com um chicote feito de corrente de metal. Isso porque, para os xiitas, o Dia do Ashura não é um dia de comemoração, mas de luto pela morte Hussein. Com o tempo, e o desenvolvimento das práticas, a esse luto somou-se a auto-flagelação. O devoto quer dizer co isso que está disposto a compartilhar do sofrimento de Hussein, e está do seu lado na luta do bem, representado por Hussein, contra o mal, representado por Yazid e seus soldados. O martírio é um dos principais aspectos do simbolismo xiita.

Embora em lugares mais isolados ainda persista a prática de autoflagelação com correntes de verdade ou mesmo com espadas, na maior parte ao menos do Irã a auto-flagelação é apenas simbólica, pois é utilizado um chicote feito com corrente de plástico. Em outros lugares ainda, há quem substitua a auto-flagelação por doação de sangue,  como ocorre em Beirute, Líbano. Clique aqui se quiser ver um vídeo que mostra como as crianças comemoram o Dia do Ashura, e perceba como são infundados os preconceitos relacionados a essa prática, que, de qualquer forma, é meio bizarra para a nossa sensibilidade.

Irã - Teerã (6)

Teerã, Irã. Um dos principais elementos do Ashura são as múltiplas reencenações da Batalha de Kerbala, que são assistidas por milhares de pessoas. Há de tudo: cavalheiros, choradeira e tendas pegando fogo, como na foto.

As diferentes visões do Dia do Ashura para sunitas e xiitas é apenas um dos aspectos que diferenciam essas duas correntes do Islã, e um dos aspectos mais secundários. Na realidade, a principal diferença entre esses dois grupos está na resposta à seguinte pergunta: quem é o herdeiro da autoridade de Maomé? É disso é muito mais que iremos falar no próximo capítulo da nossa micro-série sobre os Sunitas e Xiitas. Não percam!

E se quiser saber mais sobre o assunto desse post, não deixe de dar uma olhada nessa pesquisa empírica sobre o Mundo Muçulmano (clique aqui) e de escutar o fabuloso podcast em inglês World of Islam, produzido por Amine Tais, em que ele trata da cultura, de religião, da história e do pensamento do Mundo Muçulmano (clique aqui para ir para o site do podcast). Não deixe de conferir!

Marrocos (26)

Mesquita Hassan II, Casablanca, Marrocos. O Marrocos é uma monarquia constitucional. É governado pelos reis da Dinastia Alauita, que, apesar de serem sunitas, extraem a sua legitimidade para governa do suposto fato de serem descendentes de Maomé, através de Ali e Fátima. Ou seja, os reis alauitas são governantes sunitas, que utilizam uma das principais crenças xiitas para legitimar o seu governo.

2 menções

  1. Borboleteando no Youtube: O lado infantil do Dia do Ashura - Borboletando por aí

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  2. Sunitas e Xiitas, Parte 2: As Diferenças - Borboletando por aí

    […] história que contamos no nosso post anterior sobre a origem da divisão entre sunitas e xiitas (clique aqui para acessá-lo), parece que os sunitas foram os que ficaram do lado de Muawiyah e de seu filho […]

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