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mar 16

Borboleteando no YouTube: o Poço de Jó (Bukhara, Uzbequistão)

Viajar principalmente pela Europa e pela Ásia é tropeçar a todo momento em lugares visitados por personagens dos livros de história!

Jesus Cristo caminhou por essas ruas. Alexandre, o Grande, conquistou essa cidade. Milhares de vítimas morreram neste campo de concentração. Napoleão ou Goethe parou aqui e ali para fazer um xixi…

Quando visitamos a linda e importante Bukhara, no Uzbequistão, cidade da Rota da Seda (país esse que já foi objeto de um post, clique aqui), encontramos um lugar assim: um poço de água que teria sido criado milagrosamente por Jó. Que Jó? Aquele mesmo da Bíblia, que mesmo depois de perder sua riqueza, continuou sua fé em Deus. E a história de Jó é realmente admirável, e talvez seja uma das mais profundas da Bíblia.

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Conta a lenda que Jó, desde então começou sua peregrinação do nome de Deus e para ajudar os pobres. Chegou até esse lugar no deserto e, com o seu cajado, bateu três vezes na terra e um poço de água apareceu, que funciona até hoje. Pessoas peregrinam para esse lugar e rezam bastante.

Claro que o Uzbequistão é um país muçulmano, mas o Islã incorpora todas as histórias do Velho e do Novo Testamento, com algumas pequenas adaptações. Pode ir se acostumando…  Assim, para eles, os profetas são sagrados, merecedores de respeito e admiração. Por isso, é que nunca ouvimos notícias de muçulmanos queimando bíblias, embora, infelizmente, não seja tão incomum cristãos queimarem o Corão. Em 2012, um clérigo islâmico queimou uma bíblia diante da embaixada americana no Egito. Ele foi condenado a 11 anos de prisão pelo Judiciário egípcio, pois é crime, nesse país, desrespeitar qualquer das três religiões sagradas para eles: o islamismo, o cristianismo e o judaísmo, as religiões Abraamicas, que vêm de Abraão. E o que aconteceu com todos aqueles sujeitos, aqui no Ocidente, que queimaram o Corão?

Jó, temente a Deus. Quadro de Gyula Kardos. 1900.

Jó, temente a Deus. Quadro de Gyula Kardos. 1900.

Jó era um homem extremamente virtuoso e extremamente rico. Diante disso, o Acusador (Satã, antes da Queda) provoca Deus, ao dizer que era fácil para Jó ser tão virtuoso, já que era tão bem-aventurado. Satã diz que Deus deveria testar Jó. Acreditando que, independentemente do que acontecesse, Jó permaneceria virtuoso, Deus permitiu que Satã submetesse Jó a todo tipo de infortúnio. Satã tira de Jó tudo: seus bens, seus filhos e, por fim, a sua saúde, cobrindo seu corpo com dolorosas bolhas. Ainda assim, Jó manteve-se fiel a Deus, mas amaldiçoa o dia em que nasceu.

O que acontece, em seguida, é a parte mais interessante do Livro, embora seja também a menos lembrada. No fundo do poço (metafórico e não o do vídeo – 🙂 ), Jó é visitado por três amigos: Elifaz, Bildade e Zofar. Tão impressionados eles ficaram com o sofrimento de seu amigo, que todos permanecem calados por sete dias. Por fim, a opinião dos amigos divide-se.

Zofar aconselha que Jó tenha paciência, e que, no final, os bons serão recompensados. Basta esperar, e a Justiça de Deus será feita. Já Elifaz e Bildade estão certos que Jó fez alguma coisa errada, para merecer o seu infortúnio. Aconselham-no a se arrepender dos seus pecados, para fazer cessar a ira divina. Contudo, ninguém consegue dizer do que Jó deve se arrepender, o que teria ele feito de errado.

Jó diz então que às vezes as desventuras da vida não são sempre culpa nossa. Nós trabalhamos duro nesta vida, em nome de uma recompensa que nem sempre vem. Jó pergunta-se: se as nossas vidas são tão curtas e tão cheias de sofrimento sem recompensa, como ela pode ter significado? Indaga a Deus o porquê de tanto sofrimento.

Khiva, Uzbequistão. De acordo com as lendas, Khiva foi fundada pelo filho de uma outra figura bíblica: Noé (o da arca e da enchente)!

Khiva, Uzbequistão. De acordo com as lendas, Khiva foi fundada pelo filho de uma outra figura bíblica: Noé (o da arca e da enchente)!

Bildade afirma que Jó está afirmando que Deus é injusto, e que isso seria blasfêmia. Jó responde que não se pode pensar em Deus em termos de justiça, pois ele é muito superior e diferente de nós, e justiça é algo que é feito entre semelhantes. Pondera ainda que Deus é o senhor do Mundo, mas o Mundo está cheio de injustiça. Somos também todos Jó, no sentido que, mais cedo ou mais tarde, sofreremos sem que tenhamos dado causa a esse sofrimento.

Bildade afirma ainda que os seres humanos são vermes, e que merecem todo tipo de punição. Jó contra-ataca, afirmando que, se Deus nos criou como vermes merecedores de eterna punição, ele nos criou exclusivamente para sofrer, o que contradiz a ideia da bondade e da justiça de Deus.

Elifaz conclui que Jó está sendo punido por presumir entender algo que é incompreensível: Deus. Se Deus é incompreensível, não seria possível acusá-lo de ser injusto.

Diante dos pedidos de Zofar para ter paciência, Jó insiste que o mundo não é um conto de fadas. Se queremos encontrar um sentido para a nossa vida, temos que aceitar a injustiça e a imperfeição do mundo.

Nesse ponto, o jovem Eliú entra na história e pondera com Jó que Deus deve estar querendo lhe mandar uma mensagem com toda essa situação. Que o sofrimento de Jó pode parecer sem sentido, mas que ele tem uma razão oculta, que simplesmente não está sendo compreendida pelos envolvidos.

Deus então intervém, na forma de um redemoinho, e afirma que não deve qualquer explicação ou justificação dos seus atos, e que é verdadeiramente incompreensível para os seres humanos. Não devemos sequer tentar entende-lo. O universo não é organizado em torno de nós, seres humanos, seja para nos recompensar pela nossa boa conduta ou para nos punir por nossos desvios. Nós somos pouco relevantes na grande ordem das coisas.

Em uma das muitas salas de exibição do Palácio Topkapi, é possível observar um grande conjunto de relíquias, sagradas para inúmeras religiões: o cajado de Moisés, a espada do Rei Davi, vários tufos da barba do Profeta Maomé e as espadas da maioria dos primeiros califas. Acredite se quiser!

Em uma das muitas salas de exibição do Palácio Topkapi, é possível observar um grande conjunto de relíquias, sagradas para inúmeras religiões: o cajado de Moisés, a espada do Rei Davi, vários tufos da barba do Profeta Maomé e as espadas da maioria dos primeiros califas. Acredite se quiser!

Por fim, Deus restaura a saúde e os bens de Jó, que reconstrói, mais tarde, uma nova família.

Depois, passa a vaguear pelo mundo, e, no meio do deserto, encontra um povo com necessidade de água. Por milagre, cria um poço que até hoje pode ser visitado em Bukhara. Ao menos, é essa lenda que nos foi contada. O que se sabe é que o poço é de fato antiquíssimo, e que contém água completamente diferente daquela das outras fontes de água da região. A UNESCO já reconheceu a idade do poço com mais de dois mil anos. Será que sua origem foi mesmo um milagre de Deus?

A mensagem do Livro de Jó não é otimista. O universo não está organizado em torno de nosso umbigo, e não é uma máquina construída para punir os nossos erros e recompensar os nossos acertos. Não conhecemos nada de Deus e não podemos exigir nada de Deus, e, nesse contexto, é sem sentido falar em justiça divina.

A vida não é sem sentido, mas talvez esse sentido seja incompreensível para nós. Todavia, devemos seguir em frente, sem nunca perder de vista que, neste mundo, nem sempre as boas ações serão recompensadas, e a injustiça derrotada. Esse é o mundo em que brevemente vivemos, ao menos na perspectiva do Livro de Jó.

Todavia, isso não significa descartar toda a ideia de bem e de mal. Só que, para o Livro de Jó, os comandos divinos são mandamentos éticos que bastam a si mesmos, e independem de qualquer suborno metafísico de recompensas nesta vida ou além. No Livro de Jó, o bem deve ser praticado, pois “o temor do Senhor é a sabedoria, e apartar-se do mal é a inteligência” (Bíblia, Livro de Jó 28:28). Ou seja, o bem deve ser praticado porque é o caminho do sábio. É uma mensagem que transcende religiões. Vale a reflexão.

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Esse é o sadoba que abriga o Poço de Jó. Sadoba é uma estrutura construída pelos povos da região, em torno dos poços, para proteger a preciosa fonte de água e servir de abrigo para os viajantes contra o calor do deserto. Os poços da região eram conhecidos por serem verdadeiros ninhos de tênias. Mas o povo não tinha opção, e tinha que beber dos poços infectados. Muitas pessoas morriam por conta disso. A situação mudou apenas com a chegada dos russos no Século XIX, que construíram a primeira caixa d’água da cidade, e os poços foram desativados.

1 comentário

  1. lilian

    Borboleto com você, Cyntia! Você é a maior! beijos

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